À tarde, uma denúncia anônima levou as polícias Civil e Federal a um terreno baldio no Morro dos Prazeres, próximo ao museu, onde foram encontrados restos de molduras queimadas. Pelo menos uma das peças, de acordo com a diretora do Chácara do Céu, Vera de Alencar, era a que guardava o quadro A Dança, de Pablo Picasso, também levado no assalto. Vera suspeita ainda que outros restos de moldura eram de Os Dois Balcões, de Salvador Dalí.
– Uma numeração gravada na moldura do quadro pôde identificar que a peça pertencia ao quadro de Picasso. Faço um apelo para que continuem dando pistas sobre o paradeiro das obras – disse Vera, que chorou ao ver as molduras queimadas.
De acordo com a assessoria de imprensa do museu, nenhuma obra de arte exposta como patrimônio histórico e artístico fica assegurada. Segundo o museu, este é um procedimento usado em todo o mundo.
As telas, assim como uma coleção de gravuras de Picasso, ainda estão desaparecidas e a polícia suspeita que as obras de arte estejam no Rio. O delegado Deuler Rocha, da delegacia de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico e Artístico da PF, informou que metade do efetivo da Polícia Federal do Rio está investigando o caso.
– Os indícios são de que o roubo esteja ligado a uma quadrilha internacional. Mas a ponta do esquema, que envolve os quatro assaltantes, não era tão gabaritada. Pareceu um roubo de mercearia. Levaram até objetos pessoais de visitantes – avaliou o delegado.
Fitas de vídeo do sistema de câmeras do museu passarão por perícia, assim como os restos queimados das molduras. Ontem foi feita a reconstituição do crime no Museu Chácara do Ceú. De acordo com testemunhas ouvidas pela PF, o quadro de Picasso foi danificado na fuga.
O diretor do Departamento de Museus do Iphan, José Nascimento Júnior, afirmou que o assalto de sexta-feira representa um novo patamar de crimes contra o patrimônio cultural. Ele disse que todos os museus administrados pelo Ministério da Cultura irão aperfeiçoar os esquemas de segurança com ajuda técnica da Polícia Federal.
– Este roubo mostra que o Brasil entrou na rota internacional do tráfico de obras de arte. Investimos no ano passado mais de R$ 95 milhões nos museus, boa parte em segurança, mas vamos reforçar o esquema – informou o diretor, sem adiantar como será modificada a segurança do Chácara do Ceú.
CPI para apurar roubos
A deputada federal Alice Portugal (PCdoB-BA), integrante da Comissão de Educação e Cultura da Câmara, acompanhou ontem a investigação policial em Santa Teresa. Ela quer recolher mais informações que justifiquem a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o tráfico de obras de arte no país.
– O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional está repleto de queixas sobre mais de 900 obras de arte de valor incalculável levadas de museus e igrejas de todo o Brasil. Até ataques a túmulos indígenas no Norte do país são feitos repetidas vezes – contou a deputada, que já reuniu mais de 200 assinaturas de parlamentares para a abertura da CPI. De acordo com Alice, o pedido para a abertura da comissão está parado na Mesa Diretora da Câmara.
Para que todos os museus do Brasil sejam cadastrados e façam um inventário único de todo o patrimônio artístico e cultural, o Ministério da Cultura deve criar ainda este ano o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Este órgão será independente do Iphan e vai promover intercâmbio entre museus, inclusive os não-federais e cursos de museologia. (D.V)
A TARDE – Sexta-feira, 3 de março de 2006
Nacional
Tela roubada no Rio aparece na internet
Rodrigo Morais
Polícia
Site de leilões virtuais oferece O jardim de Luxemburgo, de Matisse; restos de molduras são encontrados em favela
RIO DE JANEIRO – A Polícia Federal (PF) localizou ontem pedaços da moldura do quadro A Dança, de Pablo Picasso, roubado do Museu Chácara do Céu, em Santa Teresa, centro. Os fragmentos estavam nos restos de uma fogueira, no Morro dos Prazeres, no mesmo bairro.
Também ontem, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi informado de que o quadro O jardim de Luxemburgo, de Henri Matisse, roubado no mesmo assalto, foi oferecido em um site de leilões virtuais da Bielo-Rússia, o que levou a PF a acionar a Interpol.
O lance mínimo seria de US$ 13 milhões. Quatro homens armados praticaram o assalto, na sexta-feira. Além do Picasso e do Matisse, eles roubaram as obras Os dois balcões, de Salvador Dalí, e Marinha, de Claude Monet. No total, elas são avaliadas em US$ 50 milhões.
Foi por meio de um telefonema anônimo ao Disque-Denúncia que a PF, com apoio da Polícia Civil, chegou até o local onde estavam as molduras queimadas. A diretora da Chácara do Céu, Vera de Alencar, confirmou que um dos fragmentos apresenta o número de série do quadro de Picasso.
Vera disse que um outro pedaço de moldura, aparentemente, seria do quadro de Dalí. Quando viu os restos, ela pensou que as obras tivessem sido destruídas e chegou a chorar. Depois, constatou que não havia resíduos das telas entre o material queimado.
‘‘Minha sensação foi de total perplexidade. É uma coisa terrível ver obras desse valor, não só financeiro, tratadas dessa maneira’’, disse Vera. ‘‘Dá para perceber que as telas foram retiradas. Tomara que eles (os ladrões) tenham feito isso.’’ O material foi levado para a superintendência da PF.
O delegado federal Elias Escobar, que chefiou a operação no Morro dos Prazeres, contou que os restos de pelo menos três molduras estavam num terreno baldio, no centro da favela. A investigação indica o envolvimento de pessoas ligadas ao tráfico de drogas do Prazeres no crime. Escobar e o também delegado federal Deuler Rocha chegaram a afirmar que havia resíduos da tela de Picasso entre o material queimado, mas em seguida voltaram atrás.
CPI – O quadro de Matisse foi oferecido durante quatro horas na página www.art.mastak.by/auctiondatails.php?id=14. A informação chegou ao Iphan por uma mensagem eletrônica. O diretor do Departamento de Museus do instituto, José do Nascimento Júnior, acredita que uma quadrilha internacional está por trás do crime. E disse que o roubo na Chácara do Céu representa uma alteração no modo como agem as quadrilhas que roubam bens culturais. ‘‘Vamos mudar o padrão de segurança dos museus’’, afirmou.
A deputada Alice Portugal (PC do B-BA) também esteve ontem na Chácara do Céu. Ela quer a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o tráfico de bens culturais. A deputadae lembrou que o site do Iphan apresenta uma lista de 900 obras roubadas no País. ‘‘Isso é tráfico, é crime organizado’’, disse ela. Entre as medidas que a deputada defende está a criação de uma campanha para estimular pessoas que tenham comprado obras roubadas, às vezes inadvertidamente, a devolvê-las.
Tribuna da Imprensa – 03 de março de 2006.
Quadros roubados são oferecidos em site da Bielo-Rússia
A Polícia Federal (PF) localizou ontem pedaços da moldura do quadro "A Dança", de Pablo Picasso, roubado do Museu Chácara do Céu, em Santa Teresa. Os fragmentos estavam nos restos de uma fogueira, no Morro dos Prazeres, no mesmo bairro. Também ontem, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi informado de que o quadro "O jardim de Luxemburgo", de Henri Matisse, roubado no mesmo assalto, foi oferecido em um site de leilões virtuais da Bielo-Rússia, o que levou a PF a acionar a Interpol.
O lance mínimo seria de US$ 13 milhões. Quatro homens armados praticaram o assalto, na sexta-feira. Além do Picasso e do Matisse, eles roubaram as obras "Os dois balcões", de Salvador Dalí, e "Marinha", de Claude Monet. No total, elas são avaliadas em US$ 50 milhões.
Foi por meio de um telefonema anônimo ao Disque-Denúncia que a PF, com apoio da Polícia Civil, chegou até o local onde estavam as molduras queimadas. A diretora da Chácara do Céu, Vera de Alencar, confirmou que um dos fragmentos apresenta o número de série do quadro de Picasso. Vera disse que um outro pedaço de moldura, aparentemente, seria do quadro de Dalí. Quando viu os restos, ela pensou que as obras tivessem sido destruídas e chegou a chorar. Depois, constatou que não havia resíduos das telas entre o material queimado.
"Minha sensação foi de total perplexidade. É uma coisa terrível ver obras desse valor, não só financeiro, tratadas dessa maneira", disse Vera. "Dá para perceber que as telas foram retiradas. Tomara que eles (os ladrões) tenham feito isso." O material foi levado para a superintendência da PF.
O delegado federal Elias Escobar, que chefiou a operação no Morro dos Prazeres, contou que os restos de pelo menos três molduras estavam num terreno baldio, no centro da favela. A investigação indica o envolvimento de pessoas ligadas ao tráfico de drogas do Prazeres no crime. Escobar e o também delegado federal Deuler Rocha chegaram a afirmar que havia resíduos da tela de Picasso entre o material queimado, mas em seguida voltaram atrás.
O quadro de Matisse foi oferecido durante quatro horas na página www.art.mastak.by. A informação chegou ao Iphan por uma mensagem eletrônica. O diretor do Departamento de Museus do instituto, José do Nascimento Júnior, acredita que uma quadrilha internacional está por trás do crime. E disse que o roubo na Chácara do Céu representa uma alteração no modo como agem as quadrilhas que roubam bens culturais. "Vamos mudar o padrão de segurança dos museus", afirmou.
CPI
Uma deputada também esteve ontem na Chácara do Céu. Alice Portugal (PC do B-BA) quer a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o tráfico de bens culturais. Ela lembrou que o site do Iphan apresenta uma lista de 900 obras roubadas no País. "Isso é tráfico, é crime organizado", disse ela. Entre as medidas que a deputada defende está a criação de uma campanha para estimular pessoas que tenham comprado obras roubadas, às vezes inadvertidamente, a devolvê-las.