O que a senhora diz para quem ainda duvida que sua candidatura a prefeita é para valer?
Não há mais dúvida. Na verdade, a candidatura é uma decisão do PCdoB em nível nacional. Nós completamos 90 anos de vida. É o partido mais antigo nas suas várias fases de existência em exercício político no Brasil. Nós estamos organizados hoje, em todos os estados brasileiros, mas não estamos em todos os municípios. Nossa pretensão para essa eleição é o PCdoB se organizar em todos os municípios brasileiros e se fazer mais visível, mais palpável, identificável, nas capitais e nas principais cidades.
Então vocês vão disputar prefeituras das capitais onde for possível…
Temos cinco candidaturas vigindo nesse momento. A de Manoela D’Ávila, no Rio Grande do Sul; Ângela Albin, em Florianópolis (inclusive apoiada pelo PT); Inácio Arruda, no Ceará; o nosso nome em Salvador; e em Aracaju, onde disputará nosso companheiro Jefferson, atual secretário de Finanças do município.
Quando vai ser realizada a convenção que escolherá seu nome como candidata?
No dia 17 de junho, e a nossa expectativa é que tudo corra bem e a gente mantenha essa candidatura. Evidentemente que política não é matemática. Então a nossa decisão é de ter uma candidatura e fazer essa aferição no primeiro turno entre os candidatos da base. E sempre, nesse mesmo diapasão, estarmos no segundo turno em torno de alguém da base ou em torno da candidata do PCdoB.
Na última vez que a senhora se encontrou com o governador Jaques Wagner, ele lhe falou sobre sua candidatura? Ou seja, há algum tipo de pressão vindo de lá?
O governador é muito elegante. Ele sabe da necessidade do PCdoB. Sempre repete que teve sua gênese política no PCdoB e compreende a necessidade de, numa democracia plena, os partidos exporem ideias, opiniões. E nossa intenção é essa, no primeiro turno ter a oportunidade de ter face, ter rosto, a condição de dizer o que nós pensamos da cidade e desmistificar a imagem de que nós somos um partido só para a coadjuvância.
E como você vai tratar essa questão dos sindicatos cujos diretores são do PCdoB e agora fazem greve contra o governador da base? É o caso dos professores e agora o pessoal da área de saúde.
As democracias são formadas por diversos agentes. Então, além dos poderes constituídos, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, você tem os grupos de pressão organizada na sociedade. Esses grupos se organizam em busca da melhoria das suas condições de vida. Nós precisamos constituir um amadurecimento para saber conviver com essa linha entre a unidade e a luta, o apoio e a crítica, a compreensão que a sociedade não irá parar de se organizar em função de coexistir com governos democráticos. O que precisa é exercitar esse equilíbrio. Então é justa a luta dos professores. Desde D. Pedro II, se discute o piso salarial nacional para os professores. Eu tenho a honra de ter sido uma das autoras desse piso. Na Câmara dos Deputados, fomos eu, a deputada Fátima Bezerra, o deputado Severiano Alves, baiano que não é mais deputado, e o deputado Carlos Abicalil, do Mato Grosso do Sul, que também não é mais deputado. E no Senado, o senador Cristóvão Buarque. Então o governo federal não tinha mandado a Lei do Piso. Nós inserimos no Fundeb. Que foi um grande avanço.
O que pegou foi o reajuste do piso…
Evidentemente, o reajuste, que se tratou este ano, os interlocutores foram indicados para que os acordos acontecessem em todos os estados. Não é só na Bahia que ocorre greve. Está ocorrendo também no Distrito Federal. Houve greve em outros governos democráticos no País, e isso nós vamos ter que saber administrar. Na minha compreensão, não há uma relação entre uma pré-candidatura do PCdoB e a existência de greves. É muito importante saber que nas primeiras filas das assembleias, quer seja de médicos, professores e qualquer outra categoria, estão profissionais que têm relação partidária ou não. No caso dos professores, que é uma categoria bastante politizada, você tem membros do PT, do PSOL, do PSTU levantando a luta na greve. Não é uma responsabilidade do PCdoB a existência da greve, é uma questão objetiva de determinado segmento social que levanta reivindicações. Agora algo que eu não concordo é o imponderável, achar que aplausos da direita são sinceros. Alerto os professores para isso, pois quem permitiu que o Estado ficasse em situação difícil do ponto de vista da saúde financeira e que, lamentavelmente, acumulou perdas e prejuízos, foram os (deputados) carlistas, que hoje dizem que aplaudem os professores. É importante separar o joio do trigo. Defendo a negociação.
A senhora não acha que os discursos nas assembleias têm sido muito ácidos em relação ao governador?
Não tenho ido às assembleias para não enfrentar o imponderável, pois à última que fui, na greve passada, militantes dessas estruturas que se acham de esquerda resolveram vaiar. E eu sou aliada da educação, tenho responsabilidade com a educação e responsabilidade com esse governo. Insisto: é preciso separar o joio do trigo. Uma coisa são os governos carlistas que detonaram a educação. A outra é um governo democrático em dificuldades, mas que eu faço um apelo, que deve negociar, que fale a linguagem da negociação, como o governo Lula exercitou. Hoje nós temos uma metodologia para os servidores federais muito inteligente. As mesas são permanentes, se reúnem no início do ano, constitui o debate para a campanha salarial e, às vezes, há greves, às vezes não. Evidentemente, se qualifica a mesa. E é isso que eu apelo ao governo.
Na sua avaliação, essa fragmentação de candidaturas não acaba fragilizando o projeto político da base?
Não há uma fragmentação. Nós todos temos que compreender que o tempo da dualidade integral passou. Nós enfrentamos durante muitos anos essa relação binária, a favor e contra. Somos uma megacidade, com quase três milhões de habitantes com dois turnos de eleições. O eleitor tem o direito de saber qual é a ênfase diferenciada, mesmo que sejam filigranas de diferenças entre a opinião do PCdoB, do PT, das demais legendas. Achamos muito normal em dois turnos desfilar as ideias políticas e depois canalizar para o processo decisório.
O candidato do PT, Nelson Pelegrino, disse, na entrevista anterior, que o PCdoB pode ficar isolado no primeiro turno se não se aliar ao PT. Como estão as negociações sobre alianças?
Temos conversado. Temos uma relação muito saudável com as diversas legendas da base, inclusive com o governador. Evidentemente o que temos a oferecer é uma candidata com história de luta, com coerência, com verdades. É um partido que tem toda uma trajetória de coerência e altivez. Isso pode fazer alguma diferença no processo de agregação.
A senhora vai se apresentar como candidata de oposição ao atual prefeito, já que o PCdoB integrou num determinado momento essa administração?
Eu diria que o atual modelo está superado em Salvador. Seria pouco sério colocar uma coroa de espinhos sob a cabeça só do último gestor sem analisar a complexidade da cidade que tem problemas crônicos. Temos relevo difícil, sofremos o inchaço das grandes cidades do Brasil e América Latina. Somos uma cidade de serviço com graves problemas de arrecadação. Então não foi só ele, mas ele foi determinante para a agudização desses problemas, para uma falta de comando político, para uma visão que lamentavelmente rebaixa a política e afasta as pessoas da cidadania. Participamos do primeiro governo junto com o PT e toda a base, mas a sua busca desenfreada de tutores, uma inquietude muito grande administrativa gerou esse processo.
Em relação aos projetos políticos polêmicos que a atual administração aprovou, que está sendo questionado na Justiça, o caso da Louos e o PDDU da Copa, a senhora lutaria para revogar?
Com certeza. Levaria à Camara Municipal que buscasse emendar ou revogar, por exemplo, a Louos. O PDDU da Copa que não tem nada a ver com a Copa, foi uma jogada de oportunidade, não pode continuar com essa formatação. Nós buscaremos um outro formato de desenvolvimento. O gestor precisa ser uma espécie de líder da região metropolitana, pois a cidade está ocupada.
Uma das grandes justificativas do prefeito para as mudanças que ele propôs no urbanismo da cidade é que isso fomentou muito a construção civil e gerou milhares de empregos. É possível a cidade continuar se desenvolvendo mas de forma tão irracional como ocorre?
Esse é o desafio. Os trabalhadores apoiam essa explosão da construção civil pelas oportunidades de emprego. Agora é preciso fazer isso com racionalidade, conjugando esse desenvolvimento com a natureza sustentável do desenvolvimento. Áreas úteis, comuns à comunidade, precisamos analisar, não ocupar esses locais, fazendo projetos que ainda se adequem às áreas que ainda restam em Salvador.
Em relação ao metrô, o que fazer, inclusive em relação às irregularidades na obra que deixam os moradores de Salvador tão indignados?
Vamos provocar que audite esse histórico, que seja fundamental para as boas práticas das finanças públicas. Queremos saber se houve dolo no projeto. Em relação à operação, defendo que comece a funcionar imediatamente e associar essa linha ao restante da obra.
E essa aproximação do PCdoB com o PMDB na eleição municipal de Salvador?
Não temos veto na base da presidente Dilma e do governador Jaques Wagner. Mas não há nenhuma tratativa finalizada com ninguém. A força gravitacional do governo é forte para as legendas da base aliada. O PCdoB lança sua candidatura tendo a oferecer apenas a sua história e a capacidade de agregação. Em relação ao PMDB, foram constituídos entraves locais que uma aliança dentro da base seria até um motivo de reaproximação do PMDB ao governo do Estado. Continuaremos conversando.
Com sua candidatura e a de Pelegrino, é provável que a presidente Dilma não participe da campanha em Salvador?
No primeiro turno, acredito que seja natural que ela resguarde a sua relação com os aliados fiéis. Ela é um exemplo que deu certo. Minha candidatura segue sua linha. Há pesquisas no mundo revelando que onde as mulheres governam há menos incidência de corrupção, mais controle e há uma dinâmica diferenciada.
A candidatura de ACM Neto na sua visão é a continuação do carlismo?
O carlismo ainda está presente. Constituiu uma holding ainda muito poderosa no Estado. Neto pode ter um tempo cronológico mais recente que os outros candidatos, mas ele representa o interesse da velha Arena. Ele representa as elites.
Agência A TARDE
Lúcio Távora | Ag. A TARDE
Foto: Rejane Carneiro | Ag. A TARDE